Olhei para o céu e lá estava a lua brilhante e distante
assim como meu pensamento vago e inquieto
não foi no ônibus que o perdi, nem na fila do pão
foi na despedida desprovida de amor

sou tão nua quanto a lua

Penso e minha falta de senso me acusa
pois mesmo instruída, ainda estou despida
de verdades, de gestos e do que é o sentir.

Olhei pro que fui pro que sou, e pro que espero ser
minha humanidade não é diferente, sou egoísta no passado
egoísta no presente mas opto por não ser gente.
Não quero defraudar nenhum sequer outrem

Perdi o trem que me levaria para Berlim
meus bilhetes se molharam na chuva que caia as 16
22 estava eu caminhando solitária à espera de meu bem.
Mas perdi também à este, naquela noite.

O sol se retirou e o mês de maio, dia-a-dia foi cinzento
não havia pássaros cantando ao fundo da charneca 
nem esperança em ver o dia nascer.

Adormeci o meu suspiro matinal
pus em seu lugar o esquecimento temporal
e com toda certeza chorei ao descobri o quanto
meu bem tinha sido a perda mais fatal

Conheço Berlim noutro ano,
mas meu benzinho tão amado não quero outro.
Mas sempre vem (...)

Abasteci meu coração fatigado, contundido e calejado
Revivendo através de nossas fotos o verão
E entendo o porquê sinto tanto frio
o gelo congela as minhas mãos.

Perdoei meus inúmeros erros e os teus
Eternizei a ideia de que não foi perda de tempo.
E que não foi mentira o que sentir ser reciproco.

Deletei meu passado olhando a lua
Sentindo o vento balançando os cabelos
As juras que te fiz em oração
E percebo onde deixei o meu juízo.

Abro a janela e lá está a razão bailando pelo salão
Ela usa vermelho nos lábios, nas unhas e vestido
Contorna as madeixas esvoaçadas,
Dando o mais belo espetáculo já visto.

Interrompo a razão com sensibilidade
E descubro o amor como deve ser
Possível, desejado e pacificador.
O eu lírico deste grita alto: Amo-me
Desde o dia que o ar encheu os meus pulmões.

A verdade é uma arma quente, que machuca
Mas não engana, nem trai, acalma, mesmo no desespero
E nessa linha digo: Que bom que perdi o trem!
Estou pensando em ir para Tóquio.

Estou de malas prontas para o por vir
Tão nua quanto a lua, lembra?

Rafaella Alencar, 31 de maio de 2018







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