Tem horas que penso, tenho vinte e oito anos, trabalho na minha própria empresa e calço o meu all star, que vem me acompanhando desde os meus onze anos de idade. Época em que fazia o ensino fundamental dois. Conheci outras marcas de tênis como Nike, Vans, Addidas e New balance, porém nenhum me cativou tanto quanto o carismático All Star. Além de versátil, é confortável, estiloso e muito durável.
É muito natural me verem usando um dos três modelos que possuo, que são mais que suficientes para dois pés. Esses bons calçados me acompanham nos passeios com o namorado, treinando na academia de musculação e até mesmo no meu trabalho. O carinho por eles é grande, tanto que tenho uma lista imaginária de todos os modelos que desejo possuir, penso que quando um estiver se acabando já tenho um novo desejo de consumo. A questão é que nesse ciclo tenho a conclusão de que para ter todos os modelos que pretendo estarei na terceira idade e calçando um par de sapatos que conheci no desabrochar de minha adolescência. Mas toda essa longa breve descrição dos meus sapatos favoritos, nada mais é que uma analogia sobre conduta moral.
Vestimos roupas que conotam nosso estilo próprio, cortamos ou colorimos os cabelos para marcar as fases da vida que estamos vivendo, consumimos musicas que transbordam notas que refletem nossa visão do mundo, do belo, das relações humanas. Frequentamos ambientes que se assemelham a morada interior de nossas almas, sejam em sua plena estabilidade e harmonia, sejam em sua inteira inquieta perturbação e sentimentos de fuga. Comemos comida ou engolimos emoções, bebemos para saciar a sede ou buscamos embeber nosso corpo de entorpecente que alivie as preocupações, fumamos por pura ansiedade e dependência química ou por desejo de não se sujar com apenas um cigarro. A tantos caminhos essa conversa pode nos levar. Contudo, o que permanece? O que subsiste ao tempo? É sobre isso, literalmente. Quais dessas perguntas sabemos responder? Quais verdades e gostos nós nutrimos para que possamos nos reconhecer ao longo dessa trajetória de vida? Quais as escolhas que tomamos na vida, que ao olhar e analisar agora percebemos que foram as responsáveis por sermos que somos? O que tem nos aproximado do velho homem que fomos, somos e desejamos nos tornar?
O que temos aqui são perguntas, o espaço está aberto para discursões, fiquem a vontade. Afinal, essas respostas nos ajudam a direcionar nossa trajetória de modo e forma que seja possível ter uma vida mais profunda que um pires.
Vale dizer que não saber responder tais perguntas é esperado, afinal ainda estamos estudantes da vida que queremos dar, mas cabe aqui a ideia de que um simples modelo de sapato popular é capaz de se tornar uma ligação entre o que deixou de ser e o que pretendemos manter em nossa passagem terrena.
Rafaella Farias Alencar, inquietações.
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